
Portugal tem dos juros mais baixos da Europa no crédito à habitação. Mas a subida já começou
Só Malta, Bulgária, Espanha e Croácia emprestam mais barato do que Portugal para comprar casa. Mas a Euribor está a subir há vários meses e o Banco Central Europeu voltou a subir as taxas. Uma explicação simples do que isto muda na prestação mensal.
Nesta notícia
- 01Primeiro: o que é a Euribor?
- 02Portugal continua a ser dos sítios mais baratos para pedir crédito
- 03Então porque é que os juros estão a subir?
- 04O que decidiu o Banco Central Europeu
- 05Quanto é que isto já pesa na prestação
- 06Quem é afetado depende do tipo de taxa
- 07O que fazer a partir de agora
- 08Fontes
Quem tem crédito à habitação, ou está a pensar comprar casa, já deve ter ouvido dizer que os juros voltaram a subir. Esta notícia explica o que está a acontecer, com números concretos e sem termos complicados.
Primeiro: o que é a Euribor?
A Euribor é a taxa a que os bancos europeus emprestam dinheiro uns aos outros. Em Portugal, muitos créditos à habitação têm taxa variável, ou seja, estão ligados a esta taxa. O mesmo acontece com os créditos de taxa mista quando termina o período fixo.
A conta é simples: Euribor + spread = a taxa de juro do crédito.
A Euribor muda ao longo do tempo e é igual para todos os bancos — nenhum banco a controla. O spread é a margem que o banco cobra. Fica escrito no contrato e só muda se for renegociado, no mesmo banco ou noutro. Quando a Euribor sobe, a taxa do crédito sobe. E a prestação também.
A prestação não muda todos os dias. Só é revista de tempos a tempos — de três em três meses, de seis em seis ou de doze em doze —, conforme o prazo da Euribor que está escrito no contrato.
Portugal continua a ser dos sítios mais baratos para pedir crédito
Segundo os dados mais recentes do Banco Central Europeu, referentes a julho de 2026, Portugal tinha a quinta taxa média mais baixa da zona euro nos novos contratos de crédito à habitação.
| País | Taxa média em novos contratos (julho 2026) |
|---|---|
| Malta | 1,94% |
| Bulgária | 2,43% |
| Espanha | 2,89% |
| Croácia | 2,91% |
| Portugal | 2,96% |
| Média da zona euro | 3,52% |
A diferença não é pequena: quem contratou crédito em Portugal ficou, em média, 0,56 pontos percentuais abaixo da média da zona euro. Num empréstimo de 200 mil euros, isso representa mais de mil euros de juros poupados logo no primeiro ano.
Então porque é que os juros estão a subir?
Porque a inflação na zona euro voltou a subir, empurrada pelos preços da energia e pelo conflito no Médio Oriente. Quando os preços sobem demasiado depressa, o Banco Central Europeu sobe as suas taxas para os travar. A Euribor antecipa essas decisões: os bancos esperam juros mais altos e emprestam dinheiro uns aos outros a taxas mais altas. É por isso que a Euribor sobe há vários meses seguidos. Estes são os valores mais recentes de cada prazo:
| Prazo da Euribor | Valor a 9 de setembro de 2026 | Percentagem dos créditos que usa este prazo |
|---|---|---|
| 3 meses | 2,626% | 24,4% |
| 6 meses | 2,800% | 39,9% |
| 12 meses | 3,138% | 31,3% |
A percentagem refere-se ao conjunto dos contratos de habitação própria permanente com taxa variável, segundo dados do Banco de Portugal de junho de 2026.
Dois marcos ajudam a perceber a dimensão da subida: as Euribor a 6 e a 12 meses estão nos valores mais altos em cerca de dois anos, e a taxa a 12 meses voltou a ultrapassar os 3% a 21 de agosto, pela primeira vez desde setembro de 2024, e continua acima dessa fasquia. Só o prazo a 3 meses recuou ligeiramente no último dia.
O que decidiu o Banco Central Europeu
A Euribor não é decidida pelo Banco Central Europeu, mas segue de perto o que o banco central faz — e, sobretudo, o que o mercado espera que venha a fazer. Em 23 de julho, o BCE manteve as taxas diretoras inalteradas.
Na quinta-feira, 10 de setembro, voltou a subir: o BCE aumentou as suas três taxas diretoras, as taxas que fixa para os bancos e que servem de referência aos juros de toda a zona euro, em 0,25 pontos percentuais. A taxa dos depósitos, a mais importante como referência, passou para 2,50%. As outras duas subiram na mesma medida, para 2,65% e 2,90%. As novas taxas entram em vigor a 16 de setembro. É o segundo aumento deste ano, depois do de junho.
A razão apontada foi a inflação, pressionada pelo conflito no Médio Oriente. O banco central espera que a inflação fique nos 3,0% este ano e reviu em alta os anos seguintes: 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028. Sobre o que vem a seguir nas taxas, Christine Lagarde recusou dar pistas.
“Não estamos a tomar uma posição sobre a direção a seguir na nossa próxima reunião.”
A justificação foi a incerteza. Com tantas mudanças geopolíticas e na economia, o BCE, nas palavras da própria, «simplesmente não consegue antecipar qual será exatamente o próximo passo». Na prática, isto quer dizer que ninguém, nem o próprio banco central, sabe hoje se haverá nova subida nas próximas reuniões, a 29 de outubro e a 17 de dezembro.
Uma subida das taxas do BCE não se reflete de imediato na prestação.
A Euribor costuma antecipar a decisão semanas antes de ela acontecer, e a prestação só muda na data de revisão prevista no contrato. Entre a decisão do BCE e a alteração na conta bancária podem passar vários meses.
Quanto é que isto já pesa na prestação
O efeito já chegou às contas das famílias portuguesas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em julho de 2026 a taxa de juro média efetivamente paga nos créditos à habitação subiu para 3,135%, o segundo mês consecutivo de subida.
A prestação média de todos os contratos foi de 414 euros. São mais 3 euros do que em junho e mais 20 euros do que em julho de 2025.
Vinte euros por mês podem parecer pouco. Mas são 240 euros por ano — e este valor é uma média de todos os contratos, incluindo os que já estão quase pagos e os que têm taxa fixa.
Um crédito recente, de valor mais alto e com taxa variável, sente subidas bastante maiores do que estes 20 euros.
Os 414 euros são a média nacional e incluem créditos antigos, já quase pagos. Para quem contratou há pouco tempo, os valores são bem diferentes. Estas são as prestações mensais de um crédito a 30 anos com spread de 1%, calculadas com as taxas Euribor do quadro anterior:
| Valor do crédito | Com Euribor 3 meses | Com Euribor 6 meses | Com Euribor 12 meses |
|---|---|---|---|
| 150.000 € | 684 € | 699 € | 728 € |
| 250.000 € | 1.140 € | 1.165 € | 1.214 € |
| 350.000 € | 1.596 € | 1.631 € | 1.699 € |
Estimativas para um contrato novo a 30 anos com spread de 1%, calculadas com as taxas Euribor de 9 de setembro de 2026. A prestação real depende do spread negociado, do capital em dívida, do prazo que falta e da data de revisão do contrato.
Quem é afetado depende do tipo de taxa
Nem todos os créditos reagem da mesma maneira:
- Taxa variável — a prestação é revista na próxima data prevista no contrato. Se a Euribor tiver subido nesse dia, a prestação sobe.
- Taxa fixa — a prestação não muda até ao fim do período fixo. As alterações só se fazem sentir depois disso.
- Taxa mista — o contrato tem taxa fixa nos primeiros anos e passa a variável a seguir. Importa saber em que ano acontece essa mudança.
Quem não sabe em que caso se encontra tem a informação no contrato e na FINE (Ficha de Informação Normalizada Europeia), o documento que o banco entrega antes da assinatura. Também costuma constar do extrato do crédito que o banco envia.
O que fazer a partir de agora
- Confirmar o prazo da Euribor do contrato e a data da próxima revisão. É nesse dia que a alteração se faz sentir, não antes.
- Verificar o spread. Em contratos com alguns anos, é possível que exista hoje uma margem melhor disponível — no mesmo banco ou noutro.
- Ponderar a transferência de crédito. Mudar de banco pode baixar o spread e, com ele, a prestação. Mas é preciso fazer as contas todas, incluindo os custos da operação e os seguros associados.
- Avaliar a taxa fixa ou mista, se a subida for motivo de preocupação. Dá previsibilidade ao orçamento, mas costuma começar mais alta do que a variável. Não é melhor nem pior: depende do orçamento de cada família e da oscilação que consegue suportar.
Não há uma resposta igual para todos. A decisão certa depende do valor ainda em dívida, do prazo que falta, do spread atual e da folga que existe no orçamento familiar.
A FINOVA compara propostas de vários bancos e analisa cada caso em concreto. A remuneração da FINOVA é paga pelo banco, depois da escritura. O processo de crédito tem sempre custos próprios: impostos, avaliação do imóvel e registos.
Fontes
Taxas de juro em novos contratos por país (julho de 2026, portal de dados), decisão de 10 de setembro e conferência de imprensa: Banco Central Europeu.
Taxa de juro implícita e prestação média (julho de 2026): Instituto Nacional de Estatística.
Peso de cada prazo da Euribor nos contratos a taxa variável (junho de 2026): Banco de Portugal.
Valores da Euribor a 9 de setembro de 2026: European Money Markets Institute (EMMI), a entidade que publica a Euribor.
