
Casas 16,5% mais caras e juros a subir: porque é que um negócio pode cair entre o CPCV e a escritura
Portugal teve a maior subida do preço das casas da União Europeia, a taxa de juro dos novos créditos chegou aos 3% e a prestação sobe em outubro. Juntos, estes números aumentam o risco de um negócio parar no crédito depois do contrato-promessa. Explicamos porquê, de forma simples.
Nesta notícia
- 01Primeiro: o que é o CPCV e porque é um momento sensível
- 02O que dizem os números desta semana
- 03Os preços subiram mais depressa do que em qualquer país da UE
- 04Nos bastidores do banco: a avaliação da casa
- 05Juros a 3% e prestações a subir: o que muda na aprovação
- 06Porque é que a subida dos juros pesa na decisão do banco
- 07O tempo entre o CPCV e a escritura também conta
- 08O que confirmar antes de assinar o CPCV
- 09Fontes
Na mesma semana saíram três números sobre casas e crédito. Os preços subiram mais em Portugal do que em qualquer outro país da União Europeia. A taxa de juro dos novos créditos chegou aos 3%. E a prestação de quem tem taxa variável sobe em outubro.
Cada número sozinho parece uma notícia de mercado. Juntos, explicam porque é que alguns negócios param depois de o comprador assinar o contrato-promessa. Esta notícia é para quem vai comprar casa e para quem acompanha a venda.
Primeiro: o que é o CPCV e porque é um momento sensível
O CPCV é o contrato-promessa de compra e venda. É o acordo em que comprador e vendedor se comprometem a fazer o negócio mais tarde, num dia marcado. Nesse dia assina-se a escritura, o contrato definitivo.
No CPCV, o comprador costuma entregar um sinal, ou seja, uma parte do preço paga logo à cabeça. Pelo Código Civil, se o negócio não se fizer por culpa de quem entregou o sinal, o vendedor pode ficar com ele.
Entre o CPCV e a escritura há semanas, por vezes meses. É nesse intervalo que o banco decide o crédito.
Quando o comprador assina o CPCV antes de o banco aprovar o crédito, assume um compromisso sem saber se o financiamento vai chegar. Se o contrato não prever o que acontece quando o crédito é recusado ou aprovado por menos, o sinal fica em risco.
O que dizem os números desta semana
| Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Preço das casas em Portugal, 2.º trimestre de 2026 | +16,5% num ano | Eurostat |
| Taxa de juro média dos novos créditos à habitação, agosto de 2026 | 3% | Banco de Portugal |
| Prestação média de todos os créditos à habitação, agosto de 2026 | 446 € | Banco de Portugal |
| Euribor a 12 meses, média de setembro de 2026 | 3,247% | EMMI (Euribor), via Lusa |
O preço das casas compara o 2.º trimestre de 2026 com o mesmo trimestre de 2025. A prestação média inclui todos os créditos em curso, também os antigos e quase pagos.
Os preços subiram mais depressa do que em qualquer país da UE
Segundo o Eurostat, o serviço de estatística da União Europeia, as casas em Portugal ficaram 16,5% mais caras num ano. É a maior subida entre os Estados-Membros, à frente da Bulgária (15,5%) e da Lituânia (14,3%).
Na zona euro, a subida foi de 4,0%. Em toda a União Europeia, de 4,7%. Só entre abril e junho de 2026, os preços em Portugal subiram 3,6%.
Para quem vende, é uma boa notícia. Para quem compra com crédito, cria um problema que nem sempre se vê no início: o banco não empresta com base no preço que comprador e vendedor acordaram.
Nos bastidores do banco: a avaliação da casa
Antes de aprovar o crédito, o banco pede uma avaliação da casa a um perito avaliador. O valor que sai dessa avaliação pode ser diferente do preço escrito no CPCV.
O Banco de Portugal recomenda que, na habitação própria permanente, o banco não empreste mais do que 90% do valor da casa. Nos documentos do banco, esta percentagem chama-se LTV, sigla inglesa de loan-to-value, ou seja, a parte da casa que é paga com crédito. E o cálculo faz-se sobre o mais baixo de dois valores: o preço de compra ou o valor da avaliação.
Quando os preços sobem depressa, a avaliação pode ficar abaixo do preço acordado.
Nesse caso, o banco empresta sobre a avaliação. A diferença tem de ser paga pelo comprador, com dinheiro próprio, até ao dia da escritura.
Três exemplos com números simples
Um casal assina o CPCV de uma casa de 600.000 euros. Conta com um crédito de 90%, ou seja, 540.000 euros. Precisa de 60.000 euros seus.
A avaliação do banco chega e diz 560.000 euros. Agora, 90% de 560.000 dá 504.000 euros. O crédito baixa 36.000 euros.
A mesma conta, para casas de 600.000, 400.000 e 200.000 euros, com a avaliação cerca de 7% abaixo do preço:
| Preço no CPCV | 600.000 € | 400.000 € | 200.000 € |
|---|---|---|---|
| Crédito previsto (90% do preço) | 540.000 € | 360.000 € | 180.000 € |
| Dinheiro próprio previsto | 60.000 € | 40.000 € | 20.000 € |
| Avaliação do banco | 560.000 € | 370.000 € | 185.000 € |
| Crédito aprovado (90% da avaliação) | 504.000 € | 333.000 € | 166.500 € |
| Dinheiro próprio necessário | 96.000 € | 67.000 € | 33.500 € |
| Diferença a mais, até à escritura | 36.000 € | 27.000 € | 13.500 € |
Valores ilustrativos, calculados por nós com o limite de 90% recomendado pelo Banco de Portugal. Cada avaliação depende da casa, da zona e do perito.
O dinheiro próprio necessário sobe entre 13.500 e 36.000 euros, consoante o preço da casa.
Se o comprador não tiver essa diferença, o negócio pode não chegar à escritura.
Juros a 3% e prestações a subir: o que muda na aprovação
Segundo o Banco de Portugal, a taxa de juro média dos novos créditos à habitação chegou aos 3% em agosto de 2026. Cerca de 87% dos novos créditos foram feitos com taxa mista, ou seja, fixa nos primeiros anos e variável depois. Mesmo assim, Portugal tem a quarta taxa média mais baixa da zona euro, onde a média é de 3,6%.
A subida vem da Euribor, a taxa a que os bancos europeus emprestam dinheiro uns aos outros e que serve de base aos créditos com taxa variável. A Euribor acompanhou a subida das taxas do Banco Central Europeu (BCE), decidida a 10 de setembro de 2026.
A DECO Proteste simulou um crédito de 150.000 euros a 30 anos, com spread de 1%. O spread é a margem que o banco cobra por cima da Euribor. Estas são as prestações a partir de outubro:
| Prazo da Euribor no contrato | Nova prestação | Subida |
|---|---|---|
| 3 meses | 684,92 € | +24,76 € (face a julho) |
| 6 meses | 709,39 € | +50,64 € (face a abril) |
| 12 meses | 737,65 € | +91,24 € (face a outubro de 2025) |
Simulação da DECO Proteste para um crédito de 150.000 euros a 30 anos, com spread de 1%, com as médias da Euribor de setembro de 2026.
Num crédito maior, a subida cresce na mesma proporção. Num crédito de 500.000 euros com Euribor a 12 meses, as mesmas taxas dão uma prestação de cerca de 2.459 euros. São cerca de 304 euros a mais por mês do que há um ano. É uma conta nossa, proporcional à simulação da DECO Proteste.
Porque é que a subida dos juros pesa na decisão do banco
O banco verifica se o cliente consegue pagar através da taxa de esforço, ou seja, a parte do rendimento mensal líquido que vai para prestações de créditos. Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda um limite de 45%.
Um casal com 6.000 euros líquidos por mês tem um limite de 2.700 euros em prestações (6.000 × 45%). A prestação de 2.459 euros do exemplo cabe, à justa. Para outros rendimentos, a conta é a mesma:
| Rendimento líquido do agregado | Limite de 45% em prestações |
|---|---|
| 6.000 € | 2.700 € |
| 4.000 € | 1.800 € |
| 3.000 € | 1.350 € |
| 2.000 € | 900 € |
Conta: rendimento líquido mensal × 45%. O limite recomendado pelo Banco de Portugal soma todas as prestações de créditos, não só a da casa.
Mas o banco não faz a conta só com os juros de hoje.
Na avaliação, o banco simula uma subida dos juros e soma todas as prestações que o cliente já paga.
Um crédito automóvel ou um cartão de crédito contam. Com juros mais altos, uma prestação que parecia caber no dia do CPCV pode deixar de caber na análise do banco.
O tempo entre o CPCV e a escritura também conta
Quando aprova o crédito, o banco entrega a FINE, a Ficha de Informação Normalizada Europeia. É o documento que resume as condições do crédito. Segundo a lei do crédito à habitação, as condições da FINE valem durante, pelo menos, 30 dias.
A lei dá também ao cliente pelo menos sete dias para pensar antes de assinar. Se a escritura ficar marcada para depois do fim da validade, o banco pode fazer nova proposta, com as taxas desse momento. Com a Euribor a subir, essas condições podem ser piores.
O que confirmar antes de assinar o CPCV
- Pedir uma análise do crédito antes do sinal. Saber quanto o banco pode emprestar, com a taxa de esforço já calculada, evita surpresas depois.
- Ter uma margem para a avaliação. Com os preços a subir depressa, vale a pena ter dinheiro próprio para o caso de a avaliação ficar abaixo do preço.
- Rever o que o CPCV prevê se o crédito for recusado ou aprovado por menos. Esta parte do contrato deve ser vista com um advogado ou solicitador.
- Marcar a escritura com tempo, mas dentro da validade da proposta. Um prazo realista para o banco, sem passar os dias de validade da FINE.
- Para o consultor imobiliário: envolver o crédito na fase da proposta. Um comprador com o crédito analisado chega ao CPCV com menos risco para todas as partes.
Não há uma resposta igual para todos. O risco depende do preço da casa, da avaliação, do dinheiro próprio disponível, do rendimento e do tempo que falta até à escritura. A decisão de conceder crédito é sempre do banco.
A FINOVA compara propostas de vários bancos e analisa cada caso em concreto. A remuneração da FINOVA é paga pelo banco, depois da escritura. O processo de crédito tem sempre custos próprios: impostos, avaliação do imóvel e registos.
Fontes
Preço das casas na União Europeia (2.º trimestre de 2026): Eurostat, «House prices up by 4.0% in the euro area», 1 de outubro de 2026. Notícia de partida: Jornal PT50 (1 de outubro de 2026).
Taxa de juro dos novos créditos à habitação (agosto de 2026): Banco de Portugal, BPstat. Prestação média (agosto de 2026): Banco de Portugal, BPstat, crédito à habitação. Nota de informação estatística de 1 de outubro de 2026, segundo o Jornal PT50 e o ECO (1 de outubro de 2026).
Simulação das prestações: DECO Proteste, citada pelo Jornal PT50 (30 de setembro de 2026). Médias da Euribor de setembro de 2026: European Money Markets Institute (EMMI), a entidade que publica a Euribor, com as médias mensais calculadas pela Lusa.
Decisão de política monetária de 10 de setembro de 2026: Banco Central Europeu.
Limites de financiamento (LTV) e taxa de esforço: Banco de Portugal, comunicado de 2 de julho de 2026 sobre a Recomendação Macroprudencial revista, aplicável desde 1 de agosto de 2026.
Validade da FINE e período de reflexão: Decreto-Lei n.º 74-A/2017, versão consolidada no Diário da República.
Regime do sinal no contrato-promessa: Código Civil, artigo 442.º, versão consolidada no Diário da República.



